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Genipabu: o homem que escutava o vento

Genipabu: o homem que escutava o vento

Do alto das dunas, um oráculo da areia revela que a solidão pode ser morada e não exílio

1. A arte do encontro

O sol pelava as costas, mas ainda havia muita areia para subir. De jeans, sapato e camisa social, escalar aquela montanha de areia infinita, a mais alta das dunas de Genipabu, era ainda mais desafiador.

Seguimos em direção a uma oferta de sombra humilde: uma barraca isolada do mundo, no topo da duna-mãe. Sob uma lona azul, um senhor de idade. Sozinho, calado, misterioso, inescrutável, fitava o oceano de uma cadeira de praia elevada. Em meio ao nada, ilhado pela areia, reinava em uma solidão tão triste quanto privilegiada. Dono do tempo, das vontades, dono da duna.

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Nascido e criado nas areias brancas de Genipabu, Seu Messias tem sotaque da areia. Vai e volta para casa de jegue, vende caju colhido do pé e cuida de um escritório de quatro metros quadrados de chão de sal, sob uma lona azul apoiada num teto de palha.

— Duas cervejas!
— E o outro?
— Não bebe.
— Água de coco? – insiste.

Quer oferecer de graça, mas negamos. Ensaiamos um passo adiante, mas Seu Messias quer papo. Precisa da prosa, nem que diminua a margem de lucro. Compensa no giro. É bom contador de histórias: há causos de estrangeiro, pernambucano, paulista, argentino.
E os Gringos?
— Quase não aparecem mais. E, quando vêm, não compram nada!

Digo que, ao contrário de nós, estão acostumados a tomar cerveja quente e não operam na nossa lógica da cerveja gelada de praia. Ele discorda:

— É pão-durice mesmo.
— Mas e os brasileiros? — pergunto.
— Os paulistas. Os paulistas são os melhores!
— Claro… têm dinheiro — comento, com desdém carioca.
— Mas carioca também é pão-duro — devolve, com desdém potiguar.

A conversa cruza o país à medida que Seu Messias discorre sobre a generosidade dos gentílicos nacionais. Sob o véu plastificado da cabana improvisada no alto da duna, margeando o mar, de latinha na mão, eu e dois colegas da equipe de filmagem gargalhamos numa prosa que volta e meia esbarrava em algum preconceito inocente.

— Teve um paulista uma vez que quis dormir aqui em cima. Disse que ia meditar, que ia se encontrar…
— E encontrou?
— Encontrou uma friaca de quebrar os ossos! Acordou tremendo, pedindo carona pro jegue. Aqui quem não entende o vento, o vento leva!

Genipabu: o homem que escutava o vento

2. A revelação

Aos poucos, a conversa ia esfriando. E virava brisa. Seu Messias começa a filosofar.
Pergunto sobre o movimento nessa época do ano.

— Já foi melhor… Antigamente, tinha fila pra subir aqui. Hoje o povo quer sombra de shopping.
— E o senhor não pensa em ir pra outro lugar?
— Pra onde? Aqui é meu relógio. O sol me acorda, o vento me conta as horas, a maré me diz quando dormir — elucubra, com os olhos fixos no horizonte.
— Mas o senhor não se sente sozinho?
— Sozinho? Sozinho é quem vive cercado de prédio.

Em meio àquelas dunas brancas, começo a me dar conta de que esbarrei num desses personagens místico-visionários, a busca de todo cronista: o bruxo ermitão da areia, profeta do vento, um Messias disfarçado de vendedor de bebidas.

— O mar é meu rádio, sabe… Quando ele ronca, sei que vem chuva. Quando dorme, sei que o dia vai ser manso.

Ilhados por aclives e declives de areia da cor do leite, rodeados de água do mar e apartados de uma cidade sutilmente desvelada pelos edifícios enfileirados do plano de fundo, vivíamos uma contemplação tão atípica quanto oportuna.

Estávamos produzindo uma vídeo-reportagem sobre um exercício de simulação de guerra que reunia forças aéreas de treze países no Nordeste brasileiro. Caças, bombardeiros, armamentos e toda a sorte de nomenclatura bélica. Da capital ao sertão, o cheiro de querosene impregnava as filmagens, e já não aguentávamos mais. Precisávamos de uma brecha. Captar uma brisa de mar, um pedaço de areia branca da Natal cartão-postal do paraíso.

Sobrou a hora do almoço. Em cima das dunas, com o Saara nordestino escaldando, a capital do Rio Grande do Norte das capas de revista: praia, duna, sol, cerveja gelada e uma boa prosa.
O flagrante intercâmbio cultural revelava um intervalo desconcertante dos roncos de caças cheirando a combustível dos dias passados e das pistas cálidas de aeroportos perdidos no sertão.

— Vi esses aviões brigando lá em cima. Pareciam passarinhos brigando por comida — contemplava, em mais uma epifania.
— É… é um treinamento de guerra.
— Guerra? Guerra com o céu é derrota certa.
— Por quê?
— Porque o céu não tem dono — disse, enfático, com os olhos no infinito.
— E pra quê guerra num mundo tão bonito? — dizia, abrindo as mãos às dunas leitosas, que escorriam em areia.
(silêncio)
— Aqui, quem briga com o vento perde.

3. Profecia da areia

Respondia a cada uma de nossas indagações como um oráculo assertivo, curto e grosso — mas com propriedade.
Para cada observação, uma profecia. Para cada curiosidade, uma sentença epistemológica.

— Sabe o que é bonito aqui? A areia nunca é a mesma. Hoje o morro tá lá… alto! Amanhã tá aqui, liso.
— Como a vida, né?
— É. A duna muda devagar, mas muda. E quem tenta segurar, afunda.

Um intervalo do trabalho, um instante acessório, logo evoluiria da amenidade ao protagonismo. Passava a tomar para si a regência da viagem.

— Quem me ensinou a subir essa duna foi meu pai. Dizia que aqui em cima o homem escuta Deus melhor.
— E o senhor escuta Ele?
— Escuto… mas fala baixinho.
(silêncio)
— Quem fica calado entende.

Do alto da duna, a pressa perdia urgência e a vida se resumia, nas palavras do meu profeta, ao essencial. Empoleirado em seu trono de areia, sob o sol de Genipabu, a prosa de Seu Messias era um bálsamo para nossas almas desgastadas pela couraça urbana.

Há homens que vivem à margem do tempo. Falam pouco. A cada palavra uma revelação, tão óbvia quanto inaudita.

Seu Messias era desses: dos tantos nordestinos visionários que, de tempos em tempos, pontuam a história da região. Ele, agora, uma espécie de Padre Cícero da areia, com um jegue por discípulo e o mar por igreja.

Lá em cima, logo no topo da duna-mãe. Lá onde não havia conexão com ninguém. Só consigo.

***

A água bateu, o vento soprou
O fogo do sol, o sal do senhor
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar de onde tudo sai

Lugar Comum – João Donato e Gilberto Gil


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