Crônicas, Rio de Janeiro

Levando a paternidade no pedal

paternidade Levando a paternidade no pedal

A primeira pedalada é a mais desequilibrada. O peso na garupa desdiz a aerodinâmica. Dois ou três metros depois, refaço as pazes com o prumo e seguimos, estrada afora, compondo versos improvisados pelo caminho.

Parece banal, mas envolve muito com as mãozinhas da Lelê cosqueando minhas costas. “Bate um ventinho tão bom, papai!”

Já tínhamos a rotina. Era na bicicleta velha, cadeirinha antiga, de criança, diz ela, de nove anos. Mas a bike elétrica deu novo apelo. E o que seria só o transporte para o trabalho, virou um intensivão adicional de paternidade.

Não só finais de semana. Me pede para passear todo dia. Para tudo. Escola, inglês, papelaria, padaria, mercado. Até para natação, a 200 metros de casa. É sempre um momento nosso. Sem mãe, tia ou melhor amiga.

E como é bom decolar a bike no Aterro do Flamengo para disputar os céus com os aviões do Santos Dumont com ela gritando na garupa. Às vezes pegamos uns atalhos por dentro e vamos pelo gramado rasgado pelas raízes das árvores, subidas e descidas irregulares. Fica assustada, com medo. Mas pede mais.

Quando aterrissamos nos jardins, a canga da mãe vira base do piquenique, mas o lanche é dispensado ao primeiro anúncio de vendedor de algodão doce. Hora de, descalços, correr na grama, subir na árvore, vigiar as nuvens, observar os passarinhos, contar, enfim, quantos barquinhos tem na baia de Guanabara. “Por que não comparamos um, pai?”

Paternidade e bicicleta

Essa ambiência toda termina por inspirá-la. Conteúdo e forma. Para além do bate-papo de sofá com TV ligada, a magrela com brisa de fim de tarde dá a ela voz a enunciações mais contemplativas, reflexivas, até confessionais, sobre as belezas e agruras do mundo.

É quando ouço suas ponderações sociais, na busca por soluções para a coletividade. Preocupações sobre os moradores de rua; condições da ciclovia; regras do trânsito; avaliações estéticas dos monumentos naturais da cidade; sem mencionar as valorações das práticas culturais cariocas pelas quais vamos esbarrando pela cidade. Agora, no caso, de bloco em bloco, transitamos de arranjos carnavalescos experimentais que releem o samba em versões do punk rock ao maracatu.

Eu nem queria sair de casa. Faltava pouco para as pistas do Aterro reabrirem aos carros. Final de domingo, aquela coisa… Ocorre que ter filhos é estar eternamente de sobreaviso ao imprevisível. Render-se cotidianamente aos desejos imponderáveis da infância em troca de um punhadinho de sorrisos sinceros.

Quando vejo, ela me leva onde eu jamais iria e ainda me faz querer ficar por lá. Voltei a pedalar como nunca, brincar de caça ao tesouro aquático, competição de saltos ornamentais na piscina, pula-pula, pique-bandeira, queimado, peteca, carrinho bate-bate, sem falar nos jogos de tabuleiro que estou revendo e os incontáveis piqueniques; comprei até um par de patins para acompanhá-la – falta só eu aprender.

Ela já me pôs a rever boa parte dos filmes mais especiais da minha infância. Sempre com aqueles debate acalorados pós sessão. Da galera procurando o tesouro nos “Goonies” ao velho descabelado com a máquina do tempo do “De volta para o futuro”. Tenho revisto todos. Com outros olhos. Os meus e os dela.

Outro dia, me fez passar a manhã soltando pipa na praia (há quanto tempo… que delícia!), e, por mais que a tentasse dissuadir, me pôs para escorrer numa tirolesa a 80 km/h morro abaixo num parque do interior do ES.

Enquanto ela ri, grita e apavora; enquanto pede emoção, velocidade e não quer mais ir embora, sigo pedalando, cúmplice de suas descobertas mundanas. E sinto na pele que o barato de ser pai de uma criança é também poder voltar a ser uma.

Termino revisitando minha infância, minha criação e, por extensão, meu caminho. E vou ressignificando muito do passado, sob novas perspectivas.

Reabertos, trajetos antigos, já percorridos, ganham uma nova chance. Num equilíbrio entre o medo de cair e a vontade de voar, ao criá-la, recrio a mim mesmo.

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