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Os Índios Tikuna no País do Futebol

tikuna Os Índios Tikuna no País do Futebol

Aqui não tem oca, casa de palha ou de tronco de palmeira. A aldeia dos índios Tikuna de Umariaçu, em Tabatinga (AM), é tudo menos o que eu imaginava.

Passaria por mais uma comunidade carente do Alto Solimões, no oeste amazonense. Mas os olhos puxados, a pele avermelhada, a fala indecifrável não deixam dúvida: é índio.

Acolhida pelo Rio Solimões, que chega ao Brasil por aqui, e isolada do resto do mundo pela selva Amazônica — não há estradas ligando Tabatinga a qualquer outra cidade brasileira —, a cidade se debruça sobre a tríplice fronteira que separa o Brasil da Colômbia e do Peru.

Na prática, é um país só. O único marco limítrofe entre Tabatinga (Brasil) e Letícia (Colômbia) é um obelisco com duas bandeiras. Sem os tradicionais postos de fronteira, motos e tuk-tuks circulam livremente de um país a outro.

tabatinga
Fronteira Brasil – Colômbia no oeste do Amazonas

Idas e vindas do Brasil ao Peru também são comuns. Bastam três minutos de barco pelo Rio Solimões: uma canoa motorizada (e cinco reais) leva os passageiros de Tabatinga à Isla de Santa Rosa de Yavarí, no departamento peruano de Loreto.

Nascido nos Andes Peruanos, o Rio Amazonas chega ao Brasil por Tabatinga (AM), quando vira Solimões, e ruma ao leste até encontrar o Rio Negro, em Manaus. Só então, retoma o nome que lhe deu prestígio e vai procurar o Atlântico no Amapá.

Rio Solimões, Tabatinga, Tikuna
As idas e vindas do Brasil ao Peru também são comuns em Tabatinga. Os dois países estão separados pelas águas barrentas do Solimões

Difícil é chegar nesse entreposto ilhado pela mata. A região é cercada por quilômetros de florestas virgens. Há apenas um voo comercial diário. De barco, leva-se até seis dias para vir de Manaus. No sentido oposto, descendo o rio, o trajeto é mais rápido: quatro noites de navegação.

A comutação internacional reúne, às margens do Alto Solimões, uma diversidade de línguas, nacionalidades e grupos étnicos. Além de brasileiros, peruanos e colombianos, há, afinal, os donos da terra, que lá permanecem em 42 aldeias na região. Uma delas é a Aldeia Tikuna de Umariaçu.

tikuna Os Índios Tikuna no País do Futebol

Os Tikuna são, de longe, a etnia indígena mais populosa da Amazônia brasileira. São cerca de 50 mil (SESAI/Ministério da Saúde, 2014), e Bejarano é um deles. Filho de índia brasileira e pastor evangélico peruano, nasceu na aldeia de Lauro Sodré, em Benjamin Constant (AM), ao sul de Tabatinga.

Nasceu no Brasil, mas morou em comunidades ribeirinhas do Peru, terra do pai, e da Colômbia, terra da avó materna. Na adolescência, a mãe o trouxe de volta ao Brasil, para morar na cidade — o que lhe rendeu dificuldades por não falar a língua oficial do País. O tempo, o estudo e a convivência com a diferença, no entanto, lhe outorgaram uma formação poliglota: espanhol, português e a sua língua indígena.

Aos 18 anos, o soldo o atraiu para o serviço militar. Hoje, divide o tempo entre a aldeia, a academia e a Aeronáutica, onde trabalha como soldado. “Na escola indígena, o pessoal estuda, termina e depois volta à roça. Minha mãe não quis. Continuei os estudos. Fiz o vestibular para Biologia na UEA (Universidade Estadual do Amazonas) e fui aprovado”.

O índio-biólogo-soldado-poliglota cursa agora mestrado em Ciências da Educação, em paralelo ao trabalho no Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Tabatinga (DTCEA-TT), da FAB.

Troco algumas palavras com o cacique da aldeia — entre outras coisas, para pedir autorização para captar imagens. Estou com uma equipe de filmagem. Câmeras e drones, ainda no chão, assustam as crianças, que se escondem atrás dos casebres, deixando escapar à vista seus olhinhos curiosos.

tikuna Os Índios Tikuna no País do Futebol

Observam de longe, com um misto de suspeita e curiosidade. De pele flagrantemente avermelhada, são meninos e meninas de três a sete anos. Vestidos com camisas esportivas, não falam uma palavra de português. Conversam entre si, baixinho, risonhos, numa língua que para mim é tão estrangeira quanto eu sou a eles.

Num erro de avaliação, dou um passo adiante. Saem correndo. Mas, quando tento voltar à entrada da aldeia, reencontrar a equipe, elas voltam. Com reforços. São, agora, muitas! Curiosas, querem papo — o que, diante do evidente descompasso verbal, é complicado.

Ocorre que, mesmo nas franjas do Alto Solimões, nas quinas da tríplice fronteira amazônica, extremo oeste do país, havia uma bola no meio do caminho.

Foram duas ou três embaixadinhas (mais do que isso, não dou conta) antes de chutar de volta — tentativa de quebrar o gelo das incompatibilidades linguísticas.

A partida começou ali mesmo, sem regra, palavra ou apito. E cada chute, escorregão ou bolada nas paredes de pau-a-pique arrancava alguma gargalhada. Logo, onde havia dois indiozinhos, logo havia três, depois quatro… e mais cinco, seis…

Foram se juntando, os times aumentando, e o barro transmutando-se à condição de palco de uma celebração dos povos. De repente, times de futebol, informalmente constituídos, emulavam um Brasileirão tão atípico quanto autêntico.

E não havia drible, bolada ou escorregão que não virasse sorriso. E como riam… Isso a gente entende. Em qualquer idioma.

Mundos tão distintos, tão distantes. Incomunicáveis.

Mas no país do futebol.

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