Balanço Instagramável: fechado para balanço
Sou de um tempo que…
Muito saudosista para uma introdução… Cheira a rapé de vovô…
Nada contra. O rapé, digo. Até porque meu avô cheirava rapé, mesmo. Mas ele era da década de 20 (século passado), veio da roça, interior de Portugal. E era carpinteiro.
Lembro quando, depois da escola, esperava minha mãe na oficina dele, na vila onde morava — o chamado ‘porão do vovô’. Entulhado de maquinas elétricas cortantes, serrotes, martelos, móveis para consertar, madeiras empilhadas, e muita serragem impregnando o ambiente, não era o lugar mais seguro para uma criança, mas eu gostava e enxergava tudo ali, claro, com as mãos. Quando vovô perdia a paciência, pregava um sarrafo numa ripa de madeira em formato de cruz e me mandava ir brincar de aviãozinho.
Funcionava. Eu corria pelas quadras da vila com a ‘aeronave’ em riste, grunhindo o som de turbinas (era a propulsão) nas manobras mais radicais.
Os voos alcançavam o parquinho da vila. Lembro porque era enorme e tinha muito mais brinquedos do que o da área comum do meu prédio. Lá perdi o medo de descer do escorrega laranja (o maior), ganhei coragem para escalar o trepa-trepa gigante, deixei muita gente ‘de castigo’ na gangorra e muito adulto tonto depois de barbarizar no gira-gira.
Mas nada se comparava à brisa dos rasantes radicais dos balanços coloridos do parquinho. Eram uns quatro ou cinco, lado a lado, cada um com uma cor mais berrante que a do outro.
A molecada disputava quem decolava mais alto. Quase sempre dava em acidente; nada que um mertiolate ardido não resolvesse. Uma choramingada e, voltávamos, calejados, para alçar voos mais altos.
Era, enfim, uma época em que os balanços eram feitos para… balançar. Você ia lá, brincava e não via razão alguma para ficar espalhando isso para os outros. Você só… se divertia. Loucura.
Esbarrei com a imagem do topo do texto (o balanço fechado para balanço), numa postagem da Mariana Coutinho da news Tempo de qualidade (bem bacana, por sinal). Soube que foi fotografada num resort na região serrana do Rio.
Podia ser só mais um balancinho instagramável em meio aos que se reproduzem como coelho por aí, mas… visionário, o brinquedo deu um passo adiante no nosso admirável mundo novo.
É o balanço fake. O balanço proibido. O balanço que não serve para balançar, onde se vai para ser fotografado.

Daí que ao perder sua razão original de ser, vem a indagação, admito, ingênua: por que então ele existe?
A resposta: ele existe para alguém poder fingir que o usou, divulgar ao mundo e ganhar validação.
Essa seria a hora daquele “puta que pariu! para onde vamos?” Mas o velho Braga dizia para resistir as exaltações óbvias, de modo a salvaguardar o estilo do texto.
Os anos passaram, vovô não está mais aqui (saudades dele, do porão, do balanço…) e já há algum tempo não vou à vila da rua Uruguai.
Mas voltei a frequentar parquinhos. Tenho uma filha pequena que adora se balançar. Enquanto não ‘adolesce’ e se envergonha de mim, vou junto tirando uma casquinha de todo banquinho amarrado em tronco de árvore ou de cor berrante dando sopa por aí. Às vezes, até fotografo!
Mas num balanSelfie, num balanço fechado para balanço… nunca fui.
Deve ser esse jeito cheirando a rapé de vovô.
De um tempo que balanço era para se balançar.

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