Belém: Mangal das Garças e arredores do centro antigo
Filtrada pelas nuvens, a luz do sol cria um mosaico de sombras na água do rio, que varia conforme o sentido do vento. Desenha figuras sombreadas na água para aliviar o calor dos peixes.
Do alto do Farol de Belém, torre em estrutura metálica de 47 metros de altura, dentro do Parque Zoobotânico Mangal das Garças, na capital paraense, a vista de um rio de água barrenta entretém ao sabor da disputa entre a luz do sol e o escudo das nuvens.
Não é um rio, aliás. Poucos metros, antes daqui, ainda na margem sul de Belém, os rios Guará e Acará formam a Baía do Guajará. Baía com cara de rio, que lava a margem oeste da capital. Cobiçada pelo velho mundo, vingou como o portão de entrada dos portugueses que ‘ocuparam’ a região do Grão-Pará, entre outros motivos, pela acessibilidade.
Mas, se o mar é a vocação de todo rio, na Amazônia, rio é vocação da vida. Nas grandes capitais, nos povoados ribanceiros, na meiuca da selva, ou no litoral. As artérias sinuosas e barrentas rasgam a selva para forjar um sistema de circulação e transporte, por onde tudo flui. Na Amazônia, tudo é rio.
Na Amazônia
tudo é lonjura
riscada de água
água barrenta,
água escura
todos os dias
todos os rios
com o mesmo plano
cruzar com a selva
p/ dar a luz a oceano
A pesca, que já era a principal fonte de alimento dos tupinambás, intensificou-se com os portugueses e, até o início do ciclo da borracha em 1879, compunha a base da economia local.
Legaram à região uma das culinárias mais saborosas do mundo. Sem exageros. Tucunaré, pirarucu, filhote, pescada amarela, tambaqui, todos nadam por aqui. Pescados, fritos, cozidos… com tucupi, jambu, maniçoba, pupunha, chicória… Se as palavras tivessem cheiro…

O Mangal das Garças
Desço da torre pelos fundos, de onde a vista dos arranha-céus contrastam com o verde solitário dos bosques arredores. Com pouco mais de 1,5 milhão de habitantes, Belém é a segunda capital mais populosa da Região Norte. Divide-se em sua porção insular, quarenta e duas ilhas (65% de seu território), e o continente propriamente, onde a urbis projeta-se para cima, bem para cima, com os prédios altos dos bairros de classe alta no litoral.
Já em solo, sigo pela trilha sinuosa do Mangal das Garças, ladeada por árvores centenárias que ostentam galhos retorcidos. Passos cuidadosos para não tropeçar em iguanas, tartarugas, quero-queros e um gavião ou outro descendo por ali.
Refúgio verde no coração urbano já maltratado do centro histórico, o Parque Mangal das Garças foi criado em 2005, resultado de uma revitalização da área de 40.000 metros quadrados, antes alagada. A transformação foi cuidadosa já que o aproveitamento das condições paisagísticas era pré-requisito.
O parque foi conceitualmente desenvolvido para representar a fauna e as macrorregiões florísticas do Pará: matas de terra firme, de várzea e os seus vastos campos. Com os lagos e a vegetação típica, vieram os animais, os restaurantes elevados, os mirantes descortinando vistas espetaculares da cidade. Um oasis no centro de Belém.

Do lado de fora do borboletário, o barulho das aves dissolve-se no ar abafado. Um guará vermelho para num corrimão ao meu lado e olha com cumplicidade. Sabe que, ao contrário de mim, pode alçar voo para se refrescar. Decola deixando penas soltas para trás que flutuam um bocado antes de sumir na mata.
No restaurante à beira do lago, o tempo desacelera. Uma senhora pede tacacá enquanto observa uma tartaruga emergir com a serenidade de quem tem os séculos a seu favor.
Leia também
Os Índios Tikuna no País do Futebol
Entre um gole e outro de cupuaçu, o pensamento voa. Como as borboletas a meu lado. Ou como o guará vermelho, enfim… o Mangal dá asas as reflexões sem utilidade prática. Daquelas que tanto nos fazem falta.
Ao final da trilha, uma garça branca posa entre os arbustos, solene. Para, observa e, com um movimento preciso, ensaiado, abre as asas.
Uma criança se equilibra na ponte com um sorvete na mão. O pai adverte com um sorriso no canto da boca, como quem compreende o gosto doce da ousadia desmedida. Foi inspirado pelas iguanas, que não saem da minha frente. Uma delas me rende uma das mais belas fotos que já consegui.

Tenho tempo. Mas não todo do mundo. De volta à cidade, Belém tenta me acolher de volta. Os sons das buzinas, de vendedores nas calçadas, o vaivém apressado, tudo parece agora parte de uma sinfonia maior, algo que se conecta com o verde, o marrom e o colorido dos residentes do Mangal.
Belém respira. Talvez seja isso que o Mangal das Garças ensina. A cidade e a natureza não são opostas, mas sim fragmentos de um mesmo quebra-cabeça.
📣Informações Práticas
✔ Visita Mangal das Garças – Belém (PA)
Endereço: Rua Carneiro da Rocha, s/n – Cidade Velha, Belém – PA (Google Maps)
Horário de Funcionamento: Terça a domingo, das 8h às 18h.
Ingressos: A entrada é gratuita, mas alguns espaços monitorados são pagos.
Espaços monitorados:
Reserva José Márcio Ayres: R$ 9,00.
Farol de Belém: R$ 9,00.
Memorial Amazônico da Navegação: R$ 9,00.
Passaporte 3 espaços R$ 22,00.
* Menores de 7 anos e maiores de 60 anos tem entrada gratuita.
* Meia entrada para estudantes, mediante apresentação de carteirinha.
Site: mangaldasgarcas.com.br
Estacionamento:
Até 2 horas: R$ 10,00.
Fração de horas: R$ 8,00.
Restaurante Manjar das Garças (Instagram)
Localizado num pavilhão central elevado, projetado para se mesclar com a paisagem do Mangal, possui uma vista panorâmica bem bacana e acolhedora. Oferece culinária paraense.
Terças a sábados das 12h às 15h e das 20h à 0h.
Aos domingos só abre para o almoço.
Para informações e agendamentos de visitas guiadas: Infomangal@para2000.com.br
🔎 Minúcias de Belém
✔ Mercado de Ferro

Nem criei muita expectativa na primeira vez que atravessei aquele portão enferrujado. Mas, uma vez dentro do Mercado Municipal de Carnes de Belém, não há como subestimá-lo.
Também conhecido por Mercado de Ferro, foi construído em 1867, influenciado pela ostentação art nouveau na ocasião da glória da extração de borracha na região. Fica dentro do Complexo Arquitetônico Ver-o-Peso, próximo Baía de Guajará.
Tombado pelo IPHAN , em 1977, o complexo abrange uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de outras construções históricas, como a Doca do Ver o ‘Peso, a Feira do Açaí, o Boulevard Castilhos França e a Praça Siqueira Campos.
✔ O melhor restaurante escondido da cidade
O motorista do Uber pediu para eu ter cuidado ao chegar. Assenti e desci do carro numa rua deserta de sobrados decadentes. Cruzei a praça do centro antigo e tive dificuldades de achar o número 284. Estava escrito a lápis, acima de uma porta velha na fachada suja.
Para entrar no restaurante do Instituto Iacitata Amazônia Viva é preciso apertar a campainha do prédio ainda rua. De portas fechadas, só entra quem se anuncia.
Mas, uma vez lá dentro, você é levado a uma verdadeira imersão na melhor culinária paraense caseira que poderia encontrar. Mesmo! De quebra, os funcionários são muito acolhedores e a pequena biblioteca na sala anexa com vista para a Belém antiga então, nem se fala.

O Iacitatá trabalha com cultura alimentar da Amazônia e auxilia o escoamento da produção agroecológica por meio de organizações parceiras de agricultura familiar, povos tradicionais e outras comunidades.
📍 IACITATA
Tv. Padre Champagnat, 284 – Cidade Velha, Belém – PA
Seg a Sábado – 10h – 18h!
✔ Açaí, o entrevero
Açaí no Pará é coisa séria. Se pedir para misturar com guaraná, como aqui no Rio, peça de longe, para, na pior das hipóteses, dar tempo de correr.

É meio como dizer, na muvuca do ensaio do Olodum no Pelourinho, que moqueca capixaba é melhor do que a baiana; pedir para parisiense botar água no café; para italiano por chocolate no cappuccino; dizer que biscoito globo é bolacha em Copacabana ou chamar Roraima de ‘Rorâima’ em Boa Vista.
Açaí paraense é raiz. Vem puro. No máximo, com farinha de tapioca. Que, aliás, é bem granulada e não tem nada a ver coma farinha de tapioca ‘sudestina’.
✔ Cair do Sol no Guajará

Cair do sol na na Baía do Guajará na perspectiva do cais do porto do Ver o’Peso (ao lado do famoso mercadinho de mesmo nome) em Belém. A natureza deu uma caprichada na capital Amazônica boa de boca, boa de vista.
Receba por e-mail
Leia também
Belém: Mangal das Garças e arredores do centro antigo
Os Índios Tikuna no País do Futebol
Aqui não tem oca, casa de palha ou de tronco de palmeira. A aldeia dos…
Levando a paternidade no pedal
A primeira pedalada é a mais desequilibrada. O peso na garupa desdiz a aerodinâmica. Dois…
